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27 de jan de 2008

"Visceralidades Urbanas" – Ronald Duarte

Aqui vão as Laudas (leia-se depoimentos) dos artistas sobre as oficinas desenvolvidas no Geringonça


"Visceralidades Urbanas" – Ronald Duarte
Por Ronald Duarte


Foram quatro encontros: Onde foram abordadas as formas de comunicação visual da cidade do Rio de Janeiro; de letreiros luminosos, cartazes lambe-lambe, muros pichados aos grafiteiros, nossos meninos noturnos. Foram apontadas as possibilidades de manifestação pública, sendo ela legal ou ilegal, desde que conseguissem comunicar e estabelecer uma linguagem com o seu público, mesmo sendo um grupo pequeno porém, potentes. Discutimos modos de ações na cidade onde podíamos apontar as feridas urbanas ou as formas criativas de viver, mesmo na precariedade das comunidades faveladas. Depois de muito discutir chegamos à idéia do deslocamento de um "modus vivendis" comum nas favelas "O Churrasquinho na Laje". Pensamos que seria a maneira de colocar dentro de uma instituição pública uma atividade privada, espécie de lazer...parodiando o local do Sesc...local de lazer, com piscina e tudo que o Sesc oferece, porém alternativo... Porém, nas negociações não fomos tão felizes, e nos foi negada a realização do "Churrasquinho na Laje"...que ao mesmo tempo pensamos em transferí-lo para o asfalto... quando também não foi possível. Concluímos que tudo isso faz parte da produção e do envolvimento da instituição ao projeto, sendo, o que foi possível foi feito e o que não foi serve como experiência. Depois de um mês compareci de novo ao Sesc para participar de uma palestra com a Marisa Flórido, onde ela abordou muito bem essa questão da negociação.


Marisa Flórido Cesar


Negociações em fuga Desde o final da década de noventa, teóricos e críticos vêm se debruçando sobre as práticas artísticas que concedem ênfase à situação onde se inscrevem e operam na sensibilidade das relações, interferindo na dinâmica das relações sociais. Nesse movimento, muitas vezes o artista torna-se um mediador social, que ativa temporariamente o convívio, ou um etnógrafo das pequenas estratégias de territorialização. Sob os nomes de intervenção urbana, arte participativa, colaborativa, engajada, ativista, coletivos de arte, arte comunitária, entre outros, práticas relacionais e contextuais estão no foco de um debate que tanto as celebra quanto as critica veementemente. Os teóricos, por sua vez, vão denominar tais tendências de “arte situada”, como Claire Doherty, “arte relacional”, como Nicolas Bourriaud, “especificidades relacionais” como Miwon Kwon. A proposta dos participantes da oficina de Ronald Duarte inseriu-se nesse tipo de atuação. Ao propor realizar um dos conhecidos “churrasquinho na laje” que se espalham pela cidade, considerando-os uma manifestação espontânea da vida em comum, “público” no sentido mais pertinente da palavra, os artistas esbarraram em vários entraves: desde a instituição que não permitiu o “churrasco” em suas dependências à burocracia dos órgãos públicos que impediria que fosse concedida, a tempo, sua realização na rua. A proposta nos leva ao centro do debate contemporâneo sobre esse tipo de manifestação artística. Alguns autores, a exemplo de Bourriaud, saúdam a arte como espaço de liberdade e a prática artística como experimentação social capaz de se resguardar da espetacularização, do controle e da uniformização dos comportamentos. Práticas em que as próprias relações humanas, seus laços e conflitos, negociações e embates são transformados em obra de arte. Outros teóricos, como Claire Bishop e Jacques Rancière, observam que o discurso comunitário que surge em meados dos noventa foi sustentado por um desejo de promover um olhar homogêneo e consensual da sociedade: uma comunidade ética na qual o dissenso político está dissolvido. Para Bishop, o fato de ser colaborativa, relacional, não garante à arte sua legitimidade ou sua significância, tampouco ser participativa a exime de ser instrumentalizada. Segundo a crítica, é mais importante observar como ela se endereça e como intervém nas convenções e relações dominantes. “As melhores práticas colaborativas dos últimos dez anos”, ressalta, “endereça esse empenho contraditório entre autonomia e intervenção social e reflete sobre essa antinomia tanto na estrutura do trabalho como nas condições de sua recepção”. Faz-se necessário, portanto, repensar as convenções da participação e questionar as imbricações no contexto. Que relações e pactos são engendrados antes e durante a produção e a recepção de um trabalho de arte contemporâneo, especialmente na rua, não há dúvidas. Mas a arte moderna também foi marcada pelo dissentimento: uma após outra, as convenções da arte — e os pactos sociais que lhes eram implícitos – foram transgredidas e recusadas nesses dois séculos, exigindo uma renegociação freqüente do que é arte. Negociação levada ao extremo pelo ready made de Duchamp ao transformar a arte em uma convenção a ser agenciada. A arte contemporânea radicaliza a renegociação do que é arte em um acordo instável. O que boa parte dessas práticas relacionais fazem é apontar contratos e pactos adjacentes a essa nomeação e tornar-los o foco de seu trabalho. Cabe a cada um a decisão de considerar e de nomear “o churrasco na laje” como “arte”. Esta é talvez a liberdade que a arte ainda encerra.

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