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27 de jan de 2008

"Visceralidades Urbanas" – Ronald Duarte

Aqui vão as Laudas (leia-se depoimentos) dos artistas sobre as oficinas desenvolvidas no Geringonça


"Visceralidades Urbanas" – Ronald Duarte
Por Ronald Duarte


Foram quatro encontros: Onde foram abordadas as formas de comunicação visual da cidade do Rio de Janeiro; de letreiros luminosos, cartazes lambe-lambe, muros pichados aos grafiteiros, nossos meninos noturnos. Foram apontadas as possibilidades de manifestação pública, sendo ela legal ou ilegal, desde que conseguissem comunicar e estabelecer uma linguagem com o seu público, mesmo sendo um grupo pequeno porém, potentes. Discutimos modos de ações na cidade onde podíamos apontar as feridas urbanas ou as formas criativas de viver, mesmo na precariedade das comunidades faveladas. Depois de muito discutir chegamos à idéia do deslocamento de um "modus vivendis" comum nas favelas "O Churrasquinho na Laje". Pensamos que seria a maneira de colocar dentro de uma instituição pública uma atividade privada, espécie de lazer...parodiando o local do Sesc...local de lazer, com piscina e tudo que o Sesc oferece, porém alternativo... Porém, nas negociações não fomos tão felizes, e nos foi negada a realização do "Churrasquinho na Laje"...que ao mesmo tempo pensamos em transferí-lo para o asfalto... quando também não foi possível. Concluímos que tudo isso faz parte da produção e do envolvimento da instituição ao projeto, sendo, o que foi possível foi feito e o que não foi serve como experiência. Depois de um mês compareci de novo ao Sesc para participar de uma palestra com a Marisa Flórido, onde ela abordou muito bem essa questão da negociação.


Marisa Flórido Cesar


Negociações em fuga Desde o final da década de noventa, teóricos e críticos vêm se debruçando sobre as práticas artísticas que concedem ênfase à situação onde se inscrevem e operam na sensibilidade das relações, interferindo na dinâmica das relações sociais. Nesse movimento, muitas vezes o artista torna-se um mediador social, que ativa temporariamente o convívio, ou um etnógrafo das pequenas estratégias de territorialização. Sob os nomes de intervenção urbana, arte participativa, colaborativa, engajada, ativista, coletivos de arte, arte comunitária, entre outros, práticas relacionais e contextuais estão no foco de um debate que tanto as celebra quanto as critica veementemente. Os teóricos, por sua vez, vão denominar tais tendências de “arte situada”, como Claire Doherty, “arte relacional”, como Nicolas Bourriaud, “especificidades relacionais” como Miwon Kwon. A proposta dos participantes da oficina de Ronald Duarte inseriu-se nesse tipo de atuação. Ao propor realizar um dos conhecidos “churrasquinho na laje” que se espalham pela cidade, considerando-os uma manifestação espontânea da vida em comum, “público” no sentido mais pertinente da palavra, os artistas esbarraram em vários entraves: desde a instituição que não permitiu o “churrasco” em suas dependências à burocracia dos órgãos públicos que impediria que fosse concedida, a tempo, sua realização na rua. A proposta nos leva ao centro do debate contemporâneo sobre esse tipo de manifestação artística. Alguns autores, a exemplo de Bourriaud, saúdam a arte como espaço de liberdade e a prática artística como experimentação social capaz de se resguardar da espetacularização, do controle e da uniformização dos comportamentos. Práticas em que as próprias relações humanas, seus laços e conflitos, negociações e embates são transformados em obra de arte. Outros teóricos, como Claire Bishop e Jacques Rancière, observam que o discurso comunitário que surge em meados dos noventa foi sustentado por um desejo de promover um olhar homogêneo e consensual da sociedade: uma comunidade ética na qual o dissenso político está dissolvido. Para Bishop, o fato de ser colaborativa, relacional, não garante à arte sua legitimidade ou sua significância, tampouco ser participativa a exime de ser instrumentalizada. Segundo a crítica, é mais importante observar como ela se endereça e como intervém nas convenções e relações dominantes. “As melhores práticas colaborativas dos últimos dez anos”, ressalta, “endereça esse empenho contraditório entre autonomia e intervenção social e reflete sobre essa antinomia tanto na estrutura do trabalho como nas condições de sua recepção”. Faz-se necessário, portanto, repensar as convenções da participação e questionar as imbricações no contexto. Que relações e pactos são engendrados antes e durante a produção e a recepção de um trabalho de arte contemporâneo, especialmente na rua, não há dúvidas. Mas a arte moderna também foi marcada pelo dissentimento: uma após outra, as convenções da arte — e os pactos sociais que lhes eram implícitos – foram transgredidas e recusadas nesses dois séculos, exigindo uma renegociação freqüente do que é arte. Negociação levada ao extremo pelo ready made de Duchamp ao transformar a arte em uma convenção a ser agenciada. A arte contemporânea radicaliza a renegociação do que é arte em um acordo instável. O que boa parte dessas práticas relacionais fazem é apontar contratos e pactos adjacentes a essa nomeação e tornar-los o foco de seu trabalho. Cabe a cada um a decisão de considerar e de nomear “o churrasco na laje” como “arte”. Esta é talvez a liberdade que a arte ainda encerra.

"Intervenções Sesquianas" - Cristina Ribas

"Intervenções Sesquianas" - Cristina Ribas

Por Cristina Ribas

Em Junho de 2007 realizamos uma oficina de “intervenção urbana” a convite do Projeto Geringonça, sediado no SESC Tijuca no Rio de Janeiro. A oficina foi coordenada praticamente a “seis mãos” por três artistas visuais: Luis Parras, Cristina Ribas e Nadam Guerra. O Objetivo primeiro do projeto era trazer ao grupo participante da Oficina idéias acerca da prática artística no espaço urbano, ou no espaço público. Este tipo de produção pode ser confundida com algumas produções classificadas por “arte pública”, e é claro que há contaminações entre tais práticas. A intervenção urbana não chega a ser uma “técnica” específica nas artes atuais, mas é fato que podemos encontrar esta forma de coletivização da arte em diversos grupos e artistas ao longo da história da arte, principalmente do Século XX. O aporte teórico da oficina partiu, portanto, desta breve distinção: entre a arte monumental urbana, feita para durar e permanecer no tempo, e a efemeridade de muitas ações contemporâneas, que dialogam com a velocidade das cidades, dos seus fluxos e das realidades corporais de seus habitantes. A Oficina de intervenção urbana foi, sobretudo, prática: em todas as aulas vivenciamos o espaço físico da sede do SESC Tijuca como nosso “sítio específico” a partir de onde poderiam surgir os projetos de intervenção plástica, considerando aspectos espaciais e características diversas do local, seus usos e freqüentadores. Em cinco aulas (considerando a última como a apresentação das intervenções a público no evento do Projeto Geringonça), os alunos equacionaram suas referências pessoais (dado que a maioria tem experiência com criação artística) com aspectos do local, experimentando a partir da improvisação de materiais novos desenhos, percursos e sentidos para os nichos, passagens, escadas, muros. Coletivamente surgiu o termo que nomeou nosso texto coletivo, escrito ao final da oficina “,vestígios, armadilhas,”: “Intervenções Sesquianas” (assim com uma vírgula antes do título, mesmo!). Todos os trabalhos foram realizados dentro do espaço físico do SESC, e apresentados no dia do evento do Projeto Geringonça. Repensando o “urbano” e o específico (neste caso as intervenções “sesquianas”) impossível dissociar o caráter investigativo das condições do local (o que pode ser tomado como “antropológico” por alguns) da criação para locais específicos, o que é certamente considerado como ferramenta conceitual para diversos artistas e coletivos contemporâneos ao tratar de intervenções urbanas.

O espaço do SESC e seus fluxos foram então o espaço criativo deste grupo híbrido e interessado de cerca de 15 pessoas, dedicado à vivência artística num especial recorte da vida cotidiana, que torna-se único porque difere da vida, coletiviza sentidos, e retorna a cada um dos corpos que vivenciam a prática artística, seja como criador ou como participante.

Por Roberto Conduru

Cidade sobre Cidade

Arte e Intervenção Urbana no SESC Tijuca O ambiente físico do SESC Tijuca, no Rio de Janeiro, é em si mesmo uma cidade. Com seus pórticos, caminhos, escadas, espaços livres, jardins e edificações de diferentes tempos, que abrigam diferentes atividades ligadas a diversos aspectos da vida humana (cultura, esporte, saúde, administração) se constitui como uma mini-cidade. Nela pode ser entrevista uma paisagem urbana, com suas regiões, bairros, praças, largos, ladeiras, bosques, construções mais ou menos antigas. Em verdade, parece ser uma vila algo idílica, pois embora tenha configuração plástica e funcional complexa, cheia de meandros e surpresas, não tem muitos dos problemas vividos nas metrópoles brasileiras hoje.

Contudo, como cidade na cidade, exige dos artistas da oficina de intervenção urbana um enfrentamento duplamente reflexivo. Não apenas a reflexão própria à arte, derivada de seu estar e não-estar no mundo, de sua relação esquiva, problemática, com o real. Mas, também, a reflexão possível em um lugar um tanto a parte do caos urbano contemporâneo. Assim, cada intervenção deve tentar ser mais do que uma experiência de laboratório para alcançar a condição de meta intervenção urbana.

No conjunto construído, arquitetura e paisagem dialogam com a topografia e os elementos pré-existentes, deles se valem, os potencializam: jogam entre si, com eles e com as pessoas que os freqüentam, os convidando a habitá-las. O que desafia os artistas a entender a inteligência do lugar, com ela lidar, testando-a e indo além. Com efeito, as intervenções realizadas pelos artistas da oficina estabelecem diferentes diálogos com o lugar físico e institucional do SESC Tijuca, desdobrando vertentes típicas da arte contemporânea. Variam os modos de jogo com o público, que é convidado a participar, a interagir e até mesmo a integrar algumas obras, pois sem as pessoas muitas propostas nem chegariam a se constituir. Há intervenções líricas, que pretendem sublinhar aspectos bucólicos de seus recantos, ou dimensões cômicas de seus elementos físicos. Outras optam por abordar questões culturais a partir da linguagem da arte: desde os atemporais sentidos humanos até as convenções e práticas sociais. E ensaios de crítica institucional, que remetem os espectadores a reflexões sobre o lugar em que estão situados, sobre os processos em que estão inseridos. Como conjunto, as várias intervenções reiteram a crença e as possibilidades abertas para o diálogo entre artes e cidade.

Roberto Conduru é doutor em História pela UFF, professor de História da Arte na UERJ e na PUC-Rio.

"Transitante: Intervenções urbano-espaciais" - Ana Holck e Pedro Engel

"Transitante: Intervenções urbano-espaciais" - Ana Holck e Pedro Engel

Por Ana Holck
Relatório

Primeira aula:
Foi dada uma palestra de abertura com apresentação de imagens (aproximadamente 100) falando sobre o desenvolvimento da arte no espaço, compreendendo o mesmo nas esferas privada e pública, incluindo tanto intervenções em espaços institucionais quanto espaços urbanos.
No final da aula dividi a turma em 4 grupos e fizemos o reconhecimento do território do SESC para o início do desenvolvimento das propostas de intervenção dos grupos.
Foi solicitado que cada indivíduo do grupo pensasse nas possibilidades de intervenção e que as trouxesse para discutir com o seu grupo na aula seguinte.

Segunda aula:
Início das discussões em grupos e atendimento de orientação a cada grupo. Os grupos se subdividiram um pouco.
Alguns grupos já estavam em processo mais elaborado do que outros. Foi solicitado para alguns grupos que trouxesse na terceira aula esboço e que fizessem pequenos testes de suas propostas para se ter uma idéia de como vai ficar e o que pode ser melhorado. Os grupos com desenvolvimento mais atrasado terão uma continuidade das discussões na terceira aula.
Por Pedro Engel

Encontrar palavras que narrem ricos encontros tentando recuperar o seu sentido é uma tarefa difícil. A fala composta por elas de saída deve resignar-se à distância que a separa dos acontecimentos de origem e assumir uma existência própria, quase autônoma, embora não completamente independente. O que liga estes dois momentos é talvez uma série de pequenas sedimentações que conseguiram persistir na memória e que hoje revelam o seu valor no poder de transformação da experiência sofrida.
A oficina “Transitante: Intervenções Urbano-Espaciais” reafirma o caráter espontâneo e exploratório das atividades propostas pelo Sesc Tijuca no contexto do projeto Geringonça. Como sugere Roberto Conduru, o Sesc pode ser visto como uma cidade em si mesmo, uma espécie de vila idílica dentro da cidade do Rio de Janeiro, ou talvez uma cidade-laboratório, onde experiências podem ser levadas a cabo tendo como meta um aprendizado sobre a prática de intervir no espaço urbano. Ao longo de cinco encontros, os participantes, reunidos em grupos, tiveram a oportunidade de propor e realizar intervenções que dialogavam com o espaço existente e com a realidade social e institucional do Sesc. Os patamares, recantos e passagens foram cenários de diversos embates e experimentações onde se fez necessário tecer diálogos e propor leituras que abrissem caminho para novos modos de se compreender o real e de transformá-lo. A negociação foi uma prática freqüente, mediando as constantes avaliações e revisões das possibilidades de realização dos trabalhos e das vontades divergentes ou complementares dentro de cada coletivo.
Ao longo dos dias, enquanto as propostas tomavam corpo, os olhares se faziam conscientes através dos diálogos e alguns conceitos eram aproximados com o propósito permitir que as manifestações espontâneas fossem sutilmente permeadas por uma prática reflexiva. Tendo como conceito chave a noção de inseparabilidade entre o trabalho proposto e o seu contexto de existência – dois âmbitos capazes de se potencializar mutuamente – as intervenções realizadas constituíram um fértil pretexto para se levantar questões sobre as possibilidades da arte na sua relação com o universo circundante. Este ciclo encerrou-se com uma discussão proposta pelo crítico convidado, Guilherme Bueno, onde se permitiu que os trabalhos pudessem ser observados à luz de questionamentos sobre as condições de existência da arte no contexto contemporâneo e seus pressupostos. Questionamentos que foram habilmente deixados em aberto.
Intervenção: luz vermelha no elevador

Partiu-se de uma proposta simples e potente: transformar o ambiente do elevador principal do Sesc através da instalação de luzes de cor vermelha. A simplicidade das falas, por sua vez, parecia tocar no cerne da questão: “seria como estar em um aquário: numa outra atmosfera”; ”queríamos criar um clima”. Para além do notável impacto visual causado pela incidência da luz sobre a superfície de aços escovado das paredes, a atmosfera vermelha terminou por provocar sensíveis deslocamentos de sentido e instalando, sensações, perturbações, falas e diferentes tipos de ligações imprevisíveis que afetavam a regularidade da experiência tão corriqueira de se tomar um elevador.

Intervenção sonora

Com o desejo de tomar emprestado da cidade uma certa potência perturbadora que reside nos ruídos urbanos – presenças por vezes invasivas – se propôs uma intervenção sonora que causasse uma breve interrupção no evento Amostra Grátis promovido pelo Sesc. Literalmente um sopro coletivo composto por buzinas, apitos, cornetas vindo de diversas direções e penetrando transversalmente no curso dos acontecimentos daquela noite. Sua efemeridade fez emergir a possibilidade de se cogitar o acontecimento, em que pesa a transitoriedade, como uma dimensão possível das ações de intervenção no espaço.

Intervenção: mico de mão em mão

As pretensões iniciais percorreram um caminho tortuoso até que se concretizasse a intervenção. Inicialmente partiu-se na direção de um estranhamento cômico propondo-se o agigantamento de um brinquedo infantil que transformaria o Sesc no grande cenário de um jogo. Dificuldades na sua realização impuseram o redirecionamento do trabalho levando à re-significação de um elemento já realizado: um macaco de espuma. Na nova proposta o “mico” era passado de mão em mão durante o evento Amostra Grátis, fazendo com que o participante, involuntariamente, se visse em posição de lidar com uma situação estranha.

Intervenção: criatura de luz sobre a clarabóia do restaurante

As falas iniciais pareciam impulsionadas pelo desejo de provocar uma inflexão no olhar. Por um lado, fazê-lo buscar a distância, trazer para dentro o que está o fora, tirar de prumo o ponto de vista habitual. Por outro, jogar com o sentido do seu objeto, transformar a qualidade do olhar por meio daquilo que é visto. A intervenção realizou-se com a instalação de um objeto insólito pairando no escuro sobre uma clarabóia no teto do restaurante do Sesc. O objeto era uma espécie de bicho-de-luz, um ser simples e inominável, tão fabuloso quanto precário. Na sua materialidade, constituída de plástico-bolha, lâmpadas fluorescentes e mangueiras de luz, trazia os traços de um improviso quase romântico e de uma promessa bem cumprida da re-significação do olhar cotidiano.
Por Guilherme Bueno

GERINGONÇA

Apesar do SESC-Tijuca corresponder apenas parcialmente ao que se poderia tomar como um espaço para intervenções urbanas, não deixa de ser entusiasmante o microcosmo que ele oferece. Em primeiro lugar, deve-se enfatizar: se ele não funciona de maneira tão randômica quanto à rua, isto não o faz menos vital como elemento da vida urbana: Basta testemunhar a impressionante circulação de diferentes pessoas e públicos em suas dependências, atraídos por atividades das mais variadas que ocorrem às vezes lado a lado (se alguém fosse descrever as dezenas de eventos que acontecem simultaneamente, tal convívio soaria para quem não o testemunhou senão insólito, improvável). Neste sentido, os desafios que ele pode oferecer aos participantes da oficina “Geringonça” é bastante rico, não só pela quantidade de situações estimuladas por tamanha diversidade, mas também os meios pelos quais nelas se pode intervir.
Os trabalhos produzidos pelos participantes da oficina (ministrada por Ana Holck e numa segunda etapa por Pedro Engel), jovens artistas, boa parte deles ainda em formação, ilustraram as soluções criativas despertadas pela proposta de agir em um contexto que, mesmo resguardado pela autoridade institucional, não deixou de revelar seu imenso potencial: no dia da apresentação das propostas, acontecidas em lugares ou situações tão discrepantes quanto o telhado de um corredor de lanchonete, a intervenção durante um show de rock / festival de cinema (!) ou ainda em um dos elevadores principais do edifício (e neles eu pude acompanhar inclusive reações das mais curiosas e interessantes), indicavam não só a compreensão de que agir no espaço “aberto” podia se dar através da exploração de linguagens diferentes (da produção de objetos à propostas imateriais ou apropriação da arquitetura) – isto é, não aprisionando a questão a um “meio” específico – mas ainda a ocasião de se pensar os lugares da arte, suas modalidades de se apresentar e se comunicar com o público. Pode-se, claro, relativizar, o quanto tal comunicação efetivamente acontece, e quais seriam os seus resultados. No entanto, eu vejo isto de um ponto de vista positivo e estimulante, na medida em que nos perguntamos sobre nossas próprias concepções de arte e se não estamos expostos a ocasião de debatê-la ou nela incorporar novas reflexões ou gerar novas propostas que escapem às regras e hábitos. Diria, inclusive: é esta zona, a qual ainda mais tateamos do que vemos que lhe garante um de seus aspectos mais interessantes, ao lidarmos com tipos de respostas para as quais não temos um cálculo prévio, tampouco assegurado (e por isso mesmo mais desafiador). É da natureza da arte colocar-nos em dúvida, e fazer-nos querer ir adiante estimulado por ela, convidando-nos a explorar novos caminhos e realizar novas descobertas. Neste aspecto, vejo a oficina como uma experiência mais do que bem sucedida, capaz de fomentar novos talentos, além de contribuir igualmente para a formação de um público de arte ampliado e diversificado.

“O Espaço Urbano na Arte e a Arte no Espaço Urbano” - Felipe Barbosa

“O Espaço Urbano na Arte e a Arte no Espaço Urbano” - Felipe Barbosa
Por Felipe Barbosa

Relatório de atividade da oficina de Arte Pública realizada no Sesc TijucaO primeiro passo dado na oficina de Arte Pública proposta pelo Sesc Tijuca foi justamente problematizar a própria noção de oficina considerando que o tema, diferentemente de outras oficinas, não se configura como técnica a ser transmitida e aprendida, o termo arte pública foi pensado a partir da experiência de diversos artistas que trabalharam o âmbito urbano. Como o “Titled Arc” de Richard Serra, os “Circuitos Ideológicos” de Cildo Meireles, as ações do Grupo Atrocidades Maravilhosas, o envolvimento de Hélio Oiticica com a comunidade da Mangueira ou as caminhadas e fotografias de Richard Long.
O grupo de estudantes se mostrou bastante interessado em conhecer mais sobre esse tema que é tão pouco debatido em nosso país, e como mediador deste grupo transmiti através da minha própria experiência como artista, já que realizei ao longo dos últimos 8 anos obras de intervenção no espaço urbano em diversos países. Acredito que o grupo pôde perceber que não existe uma só maneira de se aproximar do espaço público e que o trabalho de atelier muitas vezes é uma continuação das reflexões que se dão na rua. As possibilidades de ação e eficácia dos trabalhos feitos ou colocados na rua estão sempre vulneráveis às intempéries humanas, ou seja, o artista deve levar em conta sempre a possível interferência na obra.
Após conhecer melhor a produção de cada um dos participantes estimulei os alunos a levar a cabo suas idéias de intervenção, independente delas serem viáveis ou não, a idéia era justamente estimular a criatividade e a imaginação livres dos compromissos com o mundo real....
O dia das intervenções se mostrou um pouco frustrante para os participantes pois a solicitação por parte do Sesc de se realizar uma interferência no espaço da unidade da Tijuca se mostrou um tanto equivocada pois não se configurava um espaço urbano livre de uma estrutura institucional e a presença do show se tornava muito mais presente do que as obras realizadas em si....
Acho a iniciativa do Sesc muito boa mas acredito que o formato deva ser repensado focando mais a produção teórica e a documentação do material produzido.


Por Daniela Labra

A experiência realizada nesta oficina serviu para reunir pessoas interessadas em discutir não apenas o tema proposto, mas principalmente para refletir a produção de arte contemporânea em geral, expressada em ações e obras em suportes variados, e que integram um circuito cultural amplo mas carente de iniciativas que estimulem a formação de público para as artes visuais. Esta foi a impressão geral que tive ao participar do encerramento da oficina - dia em que estava programada fazer uma “crítica ao vivo” do processo que havia ocorrido ali. Fazer uma “crítica ao vivo”, de trabalhos de artistas iniciantes os quais não se conhece justamente o processo e menos a sua formação é uma tarefa difícil de entender. Contudo, esta questão foi colocada logo de início para o grupo de Felipe Barbosa, e assim deu-se início uma longa e despojada conversa crítica que enfocou principalmente os meandros e mistérios do circuito institucional por onde circula a obra, o artista e o crítico de arte. Desse modo, também se refletiu sobre o que é exatamente uma crítica de arte, qual o seu valor e como ela se enquadra hoje em dia, neste momento em que a própria produção artística está em crise.
Da crise da arte para a crise real das instituições brasileiras, passamos então a discutir, junto com Felipe Barbosa, o viés do circuito que vive menos crises: o mercado de arte. Uma vez que tanto o artista quanto eu própria, a crítica convidada, temos bastante vivência no lado mercantil, foi interessante perceber a surpresa dos alunos com as ‘descobertas’ que faziam a cada uma de nossas observações e comentários sobre transações econômicas que envolvem a venda e circulação de uma obra de arte. A discussão foi longa e acalorada, demonstrando que esse assunto está muito distante do universo do estudante, ainda cheio de interrogações, mitos e expectativas sobre seu futuro nas artes.
Por último, retornamos aos trabalhos planejados e desenvolvidos pelos alunos, alguns dos quais foi possível ver de perto naquele que era o último dia da oficina. Após a conversa e já conseguido algum entrosamento com o grupo, foi possível discutir um pouco os projetos e ajudá-los a pensar de que modo o que haviam realizado funcionaria no espaço urbano de fato, isto é longe e desprotegido do SESC.
A experiência oferecida mostrou-se uma boa oportunidade para colocar estes estudantes em contato com profissionais das artes que estão de fato inseridos num circuito institucional maduro. Ao menos no dia de minha participação, o encontro serviu para que os alunos recebessem um parecer não apenas sobre seus projetos, mas sobre o que pensam e procuram entender sobre a produção de arte contemporânea.

Laudas das oficinas

"Do Manifesto neoconcreto a internet 2.0 - Um rápido olhar sobre 6 décadas de arte brasileira" - Raul Mourão

Por Raul Mourão

5 de março, 18 horas, Rio de Janeiro, quarta-feira, instalações do SESC Tijuca. Sou interpelado pelo segurança na entrada do complexo cultural-esportivo, afirmo que ministrarei uma oficina de artes plásticas na sala de video. Ele me pergunta se conheço o caminho, respondo negativamente e escuto suas orientações. No lugar do elevador prefiro subir as escadas.

Geringonça já está no campo, Mona em cima, o jogo vai começar, o publico é mais numeroso do que imaginava, ligo o computador no video-projetor e no amplificador. Imagem e som funcionando. A bola vai rolar.

As próximas horas passam rápido. Uma seleção de imagens dos trabalhos, alguns videos, uma publicação em processo, muito papo, muita conversa. Ao fim cada aluno da oficina apresenta nome, profissão, e por que se inscreveu. Estudantes e profissionais de arte plásticas formam a maioria. Boa surpresa.

Nas duas quartas seguintes a idéia é Investigar a arte brasileira. Do manifesto neoconcreto a internet 2.0. Refletir sobre a formação do circuito de arte tal qual nós conhecemos hoje. Analisar os principais movimentos, os artistas, as transformações do mercado, as instituições, as grandes exposições, os textos críticos, manifestos e publicações.


Anos 50: O nascimento da Bienal de São Paulo, exposição e manifesto do grupo Ruptura, Museu de Imagens do Inconsciente, revista Noigandres, Grupo Frente, Unilabor, Cinemateca Brasileira, Primeira Exposição Nacional de Arte Concreta no MAM-SP e MAM-RJ, Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, Manifesto Concretista, MAM-RJ, Manifesto Neoconcreto, Congresso Internacional Extraordinário de Críticos de Arte
Anos 60: Cinema Novo, fundação de Brasília, as primeiras galerias, ESDI, Opinião 65, revista Realidade, Grupo Rex, Nova Objetividade Brasileira, Tropicália, o Museu de Arte de São Paulo, Salão da Bússola, MAM-SP / Panorama da Arte Atual Brasileira, HO em Londres, O Pasquim
Anos 70: Escola Brasil, Information, Domingos da Criação, Revista Navilouca, Revista Malasartes, FUNARTE, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Sala Experimental no MAM-RJ, Nova Objetividade, incêndio MAM-RJ

Anos 80: Como vai você Geração 80?, Revista Gávea, Casa 7, Paço Imperial, Revista Guia das Artes e Galeria, A Moreninha, Modernidade - Arte Brasileira do Século XX, no Museu de Arte Moderna (Paris), Brazilian Projects, P.S.1, Centro Cultural Banco do Brasil (Rio), Instituto Cultural Itaú e o Memorial da América Latina (SP)
Anos 90: Os Mágicos da Terra (Paris), MTv, Cildo Meireles, José Resende, Jac Leirner e Waltercio Caldas IX Documenta de Kassel, Torreão, Salão MAM-Bahia, Arte/Cidade, MuBE, Nuno e Bispo em Veneza, MAC Niterói, Museu de Arte da Pampulha, Centro de Artes Hélio Oiticica, X Documenta de Kassel Lygia Clark, Hélio Oiticica e Tunga, performance de Cabelo, XCVII Bienal de Veneza: Jac Leirner e Waltercio Caldas, MAMAM, I Bienal do Mercosul, Instituto Moreira Salles, Retrospectiva de Cildo Meireles no New Museum, Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura em Fortaleza, Alpendre - Casa de Arte, AGORA, as feiras internacionais se consagram como o principal acontecimento do mercado,
Anos 00: Brasil + 500 - Mostra do Redescobrimento, projeto Orlândia, os coletivos de artista, o espaço cada vez maior no circuito internacional, a revolução digital, a Bienal do Vazio e do Calote

26 de março, 17h30, Rio, centro da cidade, quarta-feira, Metrô. Estou na estação Carioca. A plataforma de embarque sentido Zona Norte está cheia, o trem chega lotado, impossível embarcar. Volto a superfície em busca de um taxi mas todos passam lotado. Decido seguir até um ponto da Rua Uruguaiana. Ao chegar lá me deparo com uma longa fila. Já são 17h45, a melhor opção é andar até a central para pegar o metrô mais vazio. Estou subindo as escadas da estação Saens Peña quando o celular toca. É Ana Paula (5 estrelas) cobrando minha posição. Hoje é dia de atividade prática. Passo a bola para a turma. Em 3 horas será produzido um trabalho coletivo. No lugar de tintas e pincéis usaremos fitas adesivas coloridas para definir áreas de cor em folhas de papel duplex. Cada folha será dividida em 8 partes. Cada unidade agora fará parte de uma nova composição.

Quarta, 27 de março é o dia de Debora Monnetrat comentar o encontro e analisar a produção. Uma mesa-redonda com divagações poéticas e filosóficas para encerrar a oficina.

O espírito Geringonça prevaleceu. Ao longo de 5 dias conversamos bastante de artes plásticas mas também passeamos pelo cinema, literatura, música, teatro, dança, política cultural e outras coisas mais. Uma troca de idéias rica e intensa.

Por Débora Monnerat

Novo Mundo

Do manifesto neoconcreto à internet 2.0 é o título da oficina realizada por Raul Mourão para o projeto Geringonça, do SESC-Tijuca. O título sugere algumas (e não poucas) reflexões sobre a forma como a vida e a arte brasileira caminharam desde meados da década de 1950 até os dias de hoje. Neste percurso, constatamos uma série de mudanças que envolvem todo o universo de artistas, obras, ações, profissionais e instituições que compõem o que chamamos de campo da arte.

Entre tantos caminhos a percorrer, é interessante notar como o desenvolvimento da internet, que se inicia na década de 1950, a partir de uma necessidade militar, acaba gerando um instrumento poderoso e democrático na aproximação de seres e culturas, vencendo, muitas vezes, a distância imposta pela segregação econômica e social. A internet 2.0, a web feita pelos próprios internautas, possibilita, hoje, não só a troca de informações, mas a criação coletiva, reunindo pessoas de diferentes culturas, trazendo liberdade e velocidade para o desenvolvimento do pensamento mundial. Ao viabilizar a veiculação e a troca de idéias e, conseqüentemente, de trabalhos, a internet 2.0 confere mais independência ao artista contemporâneo, permitindo que ele se comunique sem a intermediação institucional, por exemplo. É, certamente, um sistema que viabiliza um fluxo constante e livre de pensamento, aproximando pessoas numa rede de relacionamentos que, se bem aproveitada, torna-se um veículo de comunicação, educação e progresso para a humanidade.

Podemos dizer que este caminho aberto pela internet 2.0 parece construir-se como uma rua que, aos poucos, é habitada por aqueles que estão em sintonia, compartilhando determinadas afinidades. E cada novo espaço construído coletivamente gera outros caminhos, outras ruas, rumos e sociedades.

Dentro deste universo, encontra-se o artista contemporâneo que transita nesta espécie de “Novo Mundo” como quem busca viver e entender mais o seu tempo. Raul Mourão é um destes artistas, que colhem a poesia da hora nas situações e personagens do cotidiano - não importa se estes surgem na esquina mais próxima, nos noticiários da TV ou nas comunidades da internet 2.0.

Raul Mourão parece redesenhar o mundo sobre o próprio mundo. Recorta um pedaço e o reconstrói dentro de sua própria linguagem. Não tira, nem bota. Redesenha o mundo para falar dele, lidar com ele, viver nele.

Mourão é um cronista, que se insere na vida e a descreve, subverte a lógica e a reordena. O artista transita pela rua que ele procura, observa, descobre, edita e deseja. Mas ao lidar com este recorte, ele revela a incessante fluidez, movimentação e inegável independência da vida, que se apresenta como um organismo muito peculiar, no qual nos inserimos e atuamos. Nesta sua ficção, ele nos convoca a ver a realidade. Ao criar um mundo próprio com as suas obras, o artista traz a realidade à tona.

Certa vez, eu sonhei com Raul Mourão. Ele se encontrava num espaço totalmente preto, regido por uma dimensão outra, não vivida por nós. Ali não havia descontinuidade, limites, retas, divisões, luz, cor. Talvez por isso, fosse melhor nomeá-lo como um “não-espaço”. Dentro desta situação, encontrava-se o artista e a sua obra – uma de suas esculturas feitas a partir de uma situação ou área do campo de futebol. As linhas brancas da escultura destacavam-se naquela ambiência. Ao acordar, lembrei-me do sonho e também de Dogville, o filme de Lars von Trier. A recordação das linhas brancas sobre o fundo infinito da história de Trier, me ajudou a perceber que o sonho apontava para o espaço da arte. Era como se eu estivesse no campo fundado pelo artista, através de sua obra. Creio que toda arte refunda o mundo de cada um que com ela se relaciona - que a vê e não apenas olha. E, neste sentido, refunda o mundo externo também. Como no sonho, é a obra que dá orientação ao que a rodeia e não o contrário. O convite ao exercício do olhar é um dos convites da arte, através do qual desenvolvemos nossa sensibilidade, nosso ser e nos tornamos mais livres e lúcidos.


Rio de Janeiro, 13 de abril de 2008

TV Geringonça

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