A oficina interferências e irreverências foi uma agradável experiência. Por diversas razões, que vão desde o prazer que tive em ministrá-la, ao resultado positivo junto aos alunos. Por se tratar de uma oficina inédita, permitiu-me aprofundar meus conhecimentos sobre práticas artísticas relacionadas à intervenção, e intervenção urbana, área em que venho me exercitando como performer, possibilitando-me assim, um rico aprofundamento dentro do meu próprio metiér. Fiz uma ampla pesquisa sobre diferentes exemplos de intervenção urbana pelo mundo, desde grafite, performances, a stickers, ações quase invisíveis e body art. A idéia era traçar um painel heterogêneo de exemplos a partir do conceito de intervenção, seja na cidade, num museu ou no próprio corpo; uma vasta curadoria, que teve, porém um foco principal, ou seja, ações que fossem irreverentes, que trabalhassem no terreno do humor, que lançassem mão de procedimentos cômicos. Essa pesquisa traduziu-se, sobretudo em imagens, cerca de 400 fotos de trabalhos variados de artistas de todo o mundo. Além desse material, apresentei à turma o meu trabalho autoral A Bailarina de Vermelho. Com esse personagem venho praticando performances e intervenções em diferentes lugares e circunstâncias há cerca de um ano. Exibi, além de fotos desse percurso, alguns vídeos meus também sobre o assunto. Embora a turma fosse reduzida em termos quantitativos, em termos qualitativos acredito que a oficina tenha sido uma experiência proveitosa para os que a acompanharam. Pude perceber a curiosidade e interesse que essa prática, tão em voga, porém por enquanto ainda pouco estudado, pode despertar na turma. Há muita informação sobre o assunto, porém de maneira dispersa e não completamente formalizada. A oficina se prestou a propor um recorte sobre o tema, e acredito que tenha estimulado não só a curiosidade como a criatividade dos alunos. Além do trabalho da Bailarina de Vermelho, nos debruçamos sobre o trabalho de artistas de diferentes procedências tais como: Banksy, Orlan, Christo, Aakach Nihalani, Coletivo Poro, Pôster Boy, Eric Doeringer e artistas das vanguardas do início do século XIX, como o futurista Marinetti e Marcel Duchamp. Depois de extenso material apresentado e muita discussão a respeito defini junto ao grupo quais seriam as ações a serem trabalhadas para nossa apresentação final dentro do evento Geringonça, buscando procedimentos que mais tivessem identidade com a turma. A questão da irreverência foi um norte para nós desde o início, outro ponto que nos norteou foi o afeto, a idéia era propor um trabalho que se relacionasse de maneira afetuosa e lírica com o espaço, o evento e com o público. Assim, listamos algumas ações e batizamos nosso grupo como Abraço Grátis, cuja ação principal se baseava em promover um abraço coletivo às 20h entre artistas, produtores e público do evento. Além dessa ação distribuímos livros e quadros grátis, espalhados pelas dependências do SESC, cartas anônimas convidando para o abraço, uma árvore de desejos, poemas e palavras espalhadas por lugares inusitados. Infelizmente devido a um acidente de carro na última hora eu não pude estar presente no evento, justamente no dia da apresentação final do grupo, mas tive a oportunidade de conversar posteriormente por email com alunos que me deram boas notícias da experiência, como o depoimento do aluno Sandro Gomes comprova: “Gostamos muito da experiência e já estamos planejando uma intervenção agora para dezembro em algum espaço público aberto. As idéias está pipocando... “.
Aproveito a oportunidade deste registro para agradecer o convite feito pelo SESC Tijuca através da Sra. Patrícia Oliveira. Acho louvável a incitativa de promover um módulo de oficinas voltado à prática da intervenção, e pelo que pude saber a curadoria dos cursos me pareceu bastante interessante, abrangendo propostas variadas como intervenção sonora, pintura de painéis e, o meu trabalho de base mais performático-teatral. O SESC tem apoiado inúmeros trabalhos meus ao longo da minha carreira como artista, seja como atriz, diretora ou autora, e é sempre uma grande satisfação poder contar com esta parceria. Graças a esse convite hoje tenho uma oficina pronta que posso desdobrar em outros trabalhos, apresentar em outras circunstâncias e que, inclusive me ajudou a definir o tema da minha monografia de final do curso Teoria do Teatro pela UNIRIO, curso que finalizo em 2009, o tema interferências e irreverências certamente estará presente, talvez, inclusive, seja o próprio tema da tese. Além disso, como artista, a oficina me proporcionou um aprofundamento muito enriquecedor no meu próprio trabalho e em meu métier. Obrigada por essa oportunidade, que considero um presente, o SESC e o Projeto Geringonça podem contar comigo, e parabéns pela iniciativa. Tenho certeza que muitos alunos saíram fortemente marcados não só da minha classe, como das outras oficinas oferecidas pelo Projeto Geringonça.
Alessandra Colasanti
Dezembro de 2008
